domingo, 5 de novembro de 2017

Ricardo Brennand e a máquina do tempo

Esculturas na área externa do Instituto Ricardo Brennad, Recife (PE).

Adoro esse tempo, que nem é quente, nem é frio. Nestas manhãs, o sol tem nascido mais cedo e parece-me que há um ninho de passarinhos no beiral do telhado do nosso quarto. Tenho acordado cedo com o chilreio dos filhotinhos chamando a mamãe que foi fazer uma caminhada (ou voada?) matinal. Gradativamente, o sol se firma e o céu permanece azul, até umas sete e pouquinho, quando fica tudo nublado, parecendo que vai chover. Mas, o vento leva as nuvens, e pelas nove, o tempo já resplandece e o vento constante balança os galhos das árvores, fazendo as folhas dançarem. Tempo bom dá vontade de ir para o lado de fora, mas, o trabalho exige a permanência numa pequena saleta num prédio em reforma eterna. Portanto, todo tempo livre é bem vindo para ver o mundo, nem que seja da janela do meu quarto.

Quando é para ficar em casa, sempre aproveito um tempinho para ver um filme. E há filmes que vejo mil vezes, nem que seja aos pedaços. Outro dia, estava zapeando na TV e parei num canal em que ia começar "De volta para o futuro". Adoro esse filme, pois, além de ter uma história divertida e inteligente, incita imaginar como seria se pudéssemos voltar no tempo. Em meio as confusões de Marty, interferindo no curso da história pela sua chegada inesperada nos anos 1950, fiquei pensando em a que tempo ajustaria a minha máquina do tempo. A minha curiosidade me levaria aos idos de 1600, 1624, nesta terra mesmo, só para conferir o impacto da "invasão" holandesa em Pernambuco. Já imaginou, numa manhã como essa, o sol à pino e nenhuma nuvem no céu, desembarcando homens brancos, falando uma língua incompreensível, com suas vestes escuras? Deve ter sido mesmo um acontecimento.

Então, no último feriado, como Tony já estava cansado de permanecer na cidade, arranjamos umas coisas em uma malinha (uma não, duas: Luiza já conquistou o direito de ter uma mala só para ela),  providenciamos um quarto na "pousada dos gatos" - Pousada Casuarinas, que fica numa transversal logo no começo da Domingos Ferreira. É um lugar lindo, de atendimento impecável. Chamamos pousada dos gatos porque a rua é cheia de gatos. Já contamos até sete felinos, nas mais diversas condições, dormitando na calçada da pousada. As proprietárias colocam água e comida, e os bichanos sempre procuram uma sombra para espreguiçar. Então, fomos ao Recife com o objetivo de visitar o Instituto Ricardo Brennand. Já havia pesquisado os horários de visitação a este que foi eleito o melhor museu da América Latina. Não conhece-lo é até um crime, quando se mora a 220 km da Capital. Infelizmente, não consegui localizar no site da instituição a compra de ingressos antecipados, como já aprendi nas viagens ao exterior. Além de mais barato, o ingresso antecipado evita fila e garante o programa, devidamente pago no cartão de crédito. Então, pelas 14 horas chegamos à Várzea, guiados pela sinalização turística, que apresenta excelentes condições. A entrada já é uma pequena amostra dos castelos tropicais: uma estrada pavimentada e ladeada por palmeiras imperiais. Na portaria, havia grupos esperando a autorização para entrada. Prevenidas, Luiza foi com Tony para a fila da entrada e eu para a compra dos tickets.  Paguei 75,00 em dinheiro, cuja fila era menor, perdendo o benefício de meias-entradas, pois  Luiza perdeu o documento de estudante e eu não levei nenhum comprovante que sou professora. 
Luiza fotografando umas visitantes na entrada da exposição de Franz Post e o Brasil holandês


    Visitamos primeiro a Pinacoteca, com obras de diversos artistas. Esta em exposição uma seleção de pinturas lindas sobre o espaço natural. Gostei muito de uma série de igrejas retratadas por uma artista que não lembro o nome (sorry!). Depois, fomos ao Castelo São João ver a exposição de Franz Post e de documentos, mobiliário e arte do período holandês. A curadoria é perfeita. Ninguém fica perdido sem saber do que se tratam as peças. 
Tony observando o mobiliário do período holandês.

  
Exposição das bonequinhas e os tipos femininos do pernambuco colonial


Como já conhecíamos o acervo - eu já havia trazido estudantes do curso de Administração em Turismo da FAGA, e Luiza veio com a escola dela, dávamos pequenos spoilers a Tony sobre a  visita, destacando aspectos que já havíamos discutido relativas as experiências anteriores. Ainda assim, todas as vezes que entramos na sala das armas, não consigo deixar de me impressionar com a riqueza do acervo: armaduras, facas, punhais, espadas, canivetes, relógios e mais uma série de objetos garimpados mundo a fora durante uma vida! É nessa parte da visita que desejo reajustar minha máquina do tempo e acompanhar como começou essa coleção de arte tão diversa e maravilhosa. O Ricardo Brennand, sem dúvida, deve ser um homem fascinante. As coisas que esse senhor sabe, a história dos principais artefatos, o período histórico de cada um. Felizmente, ele também é muito generoso pois não guardou só para si tanta riqueza. Nos corredores do museu, encontramos vários turistas do Brasil inteiro e alguns poucos estrangeiros (a despeito do imenso potencial, o turismo no Brasil é fraquinho que só chá de chuchu), e muitos grupos de escolares e terceira idade. O Instituto Ricardo Brennand é um patrimônio de valor imensurável, acessível a quem desejar aprender um pouco mais.

Armadura do cãozinho, a peça do acervo mais comentada  por nós

 
Saímos do Instituto pelas 17h, quase fechando as portas, com mais um pernambucano encantado com a nossa história, e orgulhosos por podermos indicar um espaço cultural que não deve absolutamente nada aos grandes museus do mundo. 

Fiquem com Deus. 

domingo, 22 de outubro de 2017

Reconhecimentos



São tantas notícias ruins que às vezes tentamos nos blindar para não recebe-las, seja desligando a TV ou fechando mais uma página da internet. Infelizmente, essa semana o Brasil foi vítima de uma tragédia escolar que se torna cada dia mais assustadora, principalmente por ser tão próximo, em amplos sentidos. Tenho uma filha de 13 anos, que, como todo adolescente, é bem imaginativa e levada. E, ao me deparar com a situação vivenciada essa semana em Goiania, foi impossível não me colocar no lugar dos pais, tanto dos que perderam seus filhos, e nisso a morte é irreparável, quanto do jovem atirador. É uma situação tão terrível, que por isso mesmo é inimaginável o sofrimento decorrente de um momento. 

No mês de janeiro, fiz uma maratona pessoal para ver os filmes que Tony havia gravado na box. Um deles foi "Força para viver" (Rudderless, 2015), que aborda o efeito da ação do atirador sobre a vida da família. Frequentemente, eles se matam. Mas, a família fica com a dor e o fardo para toda existência. É um belíssimo filme, que mostra um outro lado da moeda, que até então, não havia se descortinado para mim. Pena que não se restringe a ficção. Desde então, fico sempre pensando nos amplos aspectos da tragédia, sem procurar culpado, nem levantar hipóteses bobas baseadas no velho "e se...?" E se o menino não fosse a escola naquele dia? E se ele tivesse falado a alguém o quanto sofria? E se alguém tivesse orientado os meninos de uma maneira melhor? E se... Mas, o tempo não volta atrás.

Já li muito sobre bullying, até porque, além de ser mãe, sou professora. Convivo com adultos jovens e não tão jovens, num momento da vida em que tudo que eles querem é terminar a graduação. Como já são (um pouco e alguns) mais maduros, não tenho que conviver com essa prática que é típica do final da infância e da adolescência. Minha filha já foi vítima de bullying na escola. Como ela sempre foi maior que os outros meninos e gordinha, não escapou do rótulo cruel de "baleia", entre outros bichos gordos. Uma vez, quando estávamos em Portugal, fui busca-la na escola e a encontrei muito triste. No caminho para a padaria, ela me contou das agressões feitas por um menino. Eu, grosseiramente, aconselhei a dizer-lhe, caso o chatinho atacasse novamente: "Vai pastar!" Na outra aula, (isso era na aula de ginástica), quando fui buscá-la, ela estava menos triste. Contou-me que o menino foi abusar com ela, e ela tacou o "vai pastar", e ele, surpreso com a reação tipicamente brasileira, ficou sem resposta. No outro dia, fui falar à professora, que repassou ao professor de Ginástica, que tomou uma excelente atitude: marcou um jogo de futebol e escalou o tal menino num time, e Luiza no outro. Ela, ficou de guarda redes (goleira). Como ela era maior que os demais meninos, ficou fácil: não passava nada, ela pegou todas a bolas e o time dela venceu. O moleque ficou na dele, só olhando de longe. Na outra semana, na hora de tirar o time, todos queriam Ana Lu no gol, que segundo eles "defendia como o Rui Patrício"! Dessa vez, Luiza foi ao gol do time do agressor, fez um bom trabalho e terminaram amigos. Final feliz na nossa história, graças a Deus.

Refletindo a minha própria experiência, preciso reconhecer que me identifico com o agressor. E faço um mea culpa, trinta e quatro anos depois. Tinha 10 anos, e fazia quarta série na Escola Adventista, onde estudava desde a Alfabetização. Neste ano, recebemos dois colegas novos: a filha de um pastor novato e um rapazinho pálido e tímido. A jovem, extrovertida, inteligentíssima, criativa, foi logo aceita ao grupo. O menino, desde o primeiro dia recebeu várias alcunhas cruéis. E, eu reconheço, estava no meio do grupo que ocupava o tempo arranjando todo tipo de história, só para aborrecer o menino. Só paramos quando a professora Madalena, então diretora da Escola, nos chamou e passou-nos um sermão. Minha mãe foi chamada lá, e teve que ouvir uma preleção sobre respeito e solidariedade. Coitada da minha mãe, ao sair da diretoria, estava branca como um papel. Era vergonha, a única coisa que restava a uma viúva pobre e cheia de filhas. Do jeito dela, pegou no couro que cobria minhas costelas e torceu, dizendo entre dentes: "em casa, a gente conversa." 

Hoje, olhando para trás, entendo o que fiz. Fui uma agressora. E sinto vergonha. Diante de tanto sofrimento causado pelo bullying, me arrependo sinceramente. Se a brincadeira só diverte a quem faz, e constrange a quem é objeto da ação, é melhor parar. Infelizmente, o tempo não volta atrás, mas, nada me impede de fazer desse dia, o momento de pedir perdão. Minha vítima de ontem, hoje  é meu colega de profissão, bom marido, excelente pai. Acompanho seus posts através da rede social, que me proporciona a oportunidade de dizer: Ivison, me desculpe pela chateação na quarta série. Eu fui uma imbecil, e, como compensação, faço o compromisso de combater essa prática, que mesmo que já tenha sido compreendida como "coisa de criança", resulta em sofrimento, o que faz do mundo um lugar pior para viver.


Fiquem com Deus. 

domingo, 8 de outubro de 2017

Leituras e reflexões: Estrelas além do tempo

Nestes tempos de tanta patrulha ideológica, ganhei de Mahria um surpreendente livro como presente de aniversário. Entrou na linha fila de livros a ler - e olhe que ela está bem crescida, pois com alguns compromissos que assumi, o tempo fica curto - mas confesso que a curiosidade venceu e a obra de Margot Lee Shetterly pulou por cima de uma série de outros títulos e veio para a ponta da fila. Esse livro foi conosco nas nossas malas para a Europa em Julho, e em muitas paradas e esperas (não leio dentro de veículos, pois fico tonta), foi uma fiel companhia. Coincidentemente, tanto na ida quanto na volta estava passando este filme no avião. Vi uns pedaços, com medo de meter spoiler no livro. Mas, não é bem assim: pode parecer clichê, mas o livro é bem diferente do filme. E por mais incrível que pareça, o filme é melhor. Mas a crítica não invalida a importância do resgate desta história incrível de mulheres maravilhosas. Sem dúvida, a autora contribuiu imensamente para o resgate e o registro da contribuição dessas moças para o progresso da humanidade.

Classifico como progresso para a humanidade, não só porque elas trabalharam no programa espacial norte americano. Oriundas do NACA, as jovens computadoras fundaram a NASA, e o que se tem hoje se deve também ao trabalho dessas profissionais. Agora, imaginem o mundo que tínhamos nas décadas de 1940-1950. Qual seria o lugar social das mulheres nesta época? Como a maioria dos homens estavam na guerra, o mercado de trabalho abriu-se para a mão de obra de saias. Quem até então só tinha a oportunidade de lecionar em escolas básicas, teve oportunidade de mostrar seus valores em outros espaços. Nós, mulheres do Século XXI somente permanecemos na luta do mercado de trabalho por causa da ação dessas desbravadoras. E mesmo me arriscando em mais um clichê das empoderadas, imaginemos o que era ser mulher e negra em 1950, período em que a luta pelos direitos civil entrava em efervescência na próspera sociedade norte americana, divulgada através do cinema como modelo para o mundo. Pois bem, já no período final da segunda guerra mundial, algumas mulheres já prestavam serviços ao governo como computadoras. É isso aí: computadoras. As jovens, matemáticas e engenheiras trabalhavam até 15 horas por dia fazendo os cálculos para viabilizar  projetos aeronáuticos. À unha ou com imensas e rudimentares calculadoras, elas faziam as "contas" e revisavam resultados dos físico e engenheiros cujos projetos eram batizados com seus nomes. Pois, ao final da segunda guerra mundial, mais da metade dessa força de trabalho era constituído por mulheres negras. Além do trabalho puxado, realizado em ambiente segregado, elas tinham suas casas, suas famílias, participavam das ações de suas Igrejas. A fantástica Katherine Globe, que perdeu o marido muito cedo, ainda cuidava sozinha de três filhas, até arranjar um novo parceiro. Eram mulheres fantásticas, que não temiam mudar de cidade, sozinhas, em busca de novas e melhores oportunidades de trabalho. 

Nesses tempos em que o mundo parece-me que está ao contrário, e que já começam a questionar acerca da condição feminina na sociedade, reavivando um discurso machista, fruto de um pensamento limitado, um livro como esse é fundamental para não deixar esquecer que cada pessoa tem o seu valor, independente de gênero ou de etnia. Nós vivemos num país onde, teoricamente, não existe racismo, no entanto, a cada dia temos conhecimento de ações discriminatórias que não se parecem nada com uma sociedade igualitária. É nosso dever educar nossos filhos para que se oponham a qualquer forma de discriminação, contribuindo para quebrar o ciclo de exclusão historicamente construído contra os negros, as mulheres, e mais ainda, contra as mulheres negras. 

É uma leitura agradável e instrutiva, baseada num excelente trabalho de pesquisa. para que tenham ideia, nas páginas 289-342 consta de uma imensa lista de referências a documentos oficiais e obras diversas para fundamentar, tanto a história da contribuição das computadoras, como para desenhar a sociedade norte americana, com bastante fidelidade. Só me perdi um pouco na leitura quando a autora se jogava nas explicações acerca dos tuneis de vento para teste dos aviões. É tanta explicação baseada na física e na matemática, que eu acabava perdendo o fio da meada. Me interessou mais saber como as pessoas viviam do que o que elas calculavam. Para mim, já chega o "dois mais dois". Se sofisticar muito na soma, peço ajuda aos universitários.

Fiquem com  Deus.     

domingo, 1 de outubro de 2017

"Estudanta"


Pronto, então parece que finalmente, no início de Outubro, começa a primavera nos lados de cá. depois das chuvas, é sempre bom prestar atenção no caminho, pois os pássaros estão voltando. E no nosso trajeto casa-escola-casa, como ainda há umas áreas com pequenas chácaras lá por trás do IBN, sempre avistamos pássaros bem bonitos: bem-te-vis, anuns, lavandeiras, garrichas e um pássaro azul e preto, que não sei o nome. Infelizmente, na área da nossa casa quem mandam são os pardais. Eles só perderam a majestade quando uma família de gaviões fez um ninho numa árvore do quintal da vizinha da frente. Deram para mundo o mundo e só voltaram quando os gaviões se mudaram. Acho que os bebês cresceram e foram cantar noutra freguesia. O tempo passa para todos.

Nessa brincadeira, andei fazendo umas contas: não é que a minha graduação em Geografia completa 21 anos em 2017? Alcançando a maioridade, imagino o quanto a ciência do espaço mudou em duas décadas. Hoje em dia, as coisas são muito rápidas, embora tenhamos que ter paciência para que algumas inovações tecnológicas cheguem em nosso cotidiano. Outro dia, o Prof. Otto Benar partilhou no Facebook este filme do Amazon Go:
  

Fiquei tão impressionada com esse sistema! tão tecnológico, tão independente, e tão responsável. Depois, Mahria partilhou-me também, e ainda ontem mandou-me um vídeo semelhante, de um empresa oriental. Ontem, Gustavo mandou esse video da Amazon para o grupo Imprensa AESGA, quando discutíamos o trabalho na pós-modernidade. Pelo que vemos, a cada dia que passa, as tecnologias podem mudar o nosso dia-a-dia, facilitando tarefas repetitivas em enfadonhas.  O mercado de trabalho é dinâmico e também reflete essas mudanças. Há inúmeros casos de trabalhadores que perdem seus postos de trabalho por conta da evolução tecnológica. Eu mesma já passei por isso! talvez vocês não saibam, mas o meu primeiro emprego foi numa Rádio. Trabalhei por dois anos na Rádio Marano, em Garanhuns. Na minha carteira de trabalho consta o registro de "auxiliar de escritório" (mais genérico, impossível). Passava minhas oito horas diárias atendendo telefones e anotando as mensagens dos apaixonados do Rádio Toque. Ô coisinha brega! Mas, na época, início dos anos 1990, era um sucesso na cidade e na região. Também era responsável por datilografar as programações. Ronaldo selecionava as músicas em blocos de cinco (geralmente quatro nacionais e uma internacional), em um monte de disco de vinil, e eu datilografava a "playlist" em duas vias: uma ia para o estúdio e a outra ficava na pasta para a inspeção do ECAD (Direitos Autorais).  Pois bem, vejam as rádios hoje: tudo informatizado, programação digital, mensagens via waths app. Certamente não existe mais a telefonista nem a moça que "batia" a programação. O tempo passa e as coisas mudam.

Pois bem, durante sete anos fiz as provas de Geografia do Vestibular da AESGA. Ao todo, foram 14 provas, e obtive até um bom resultado: das 140 questões inéditas, forjadas no meu juízo (assava até uma semana pensando nas questões e uma semana construindo-as, um trabalho minucioso), apenas uma questão foi anulada por erro meu. Contudo, as coisas mudaram e as provas tipo ENEM tornaram-se o modelo a ser seguido, e vamos considerar que é bem complicado ser multidisciplinar quando o sistema insiste em ser disciplinar. Então, chegou um momento que já estava me repetindo e pedi baixa da função: a última prova parecia um dinossauro falando.

Voltei inquieta do 6º Congresso Íbero Americano de Análise Qualitativa. Ouvi muito sobre educação e decidi experimentar uma coisa nova. Quem tal enfrentar um curso em EaD para, como cliente conhecer melhor antes de criticar? Decidi por um curso de Licenciatura em Pedagogia, ofertado no modelo semi-presencial pela UNOPAR, cujo polo de Garanhuns é administrado por professores amigos. No dia 27 de agosto, num domingo de manhã, Tony me deixou no prédio da antiga Bhrama, onde atualmente funciona a Universidade. Esperamos um bocado na guarita da frente, até que nos liberaram para entrar no prédio, éramos uns 70 candidatos para os mais diversos cursos. Fizemos uma redação e aguardamos o resultado através do portal da instituição. No dia 30.08 avisaram aos aprovados e daí, ao processo de matrícula. Tive que contar com a eficiência de Ivania, da Secretaria de Educação para encontrar a minha ficha 19, pois fiz o nível médio (no tempo eram "Estudos Gerais") no Colégio Municipal Padre Agobar Valença, que já é extinto. 

As aulas começaram no dia 14 de setembro no 1º período Flex, pois o grupo em que entrei já está no segundo semestre. Vou lá toda quinta-feira, onde temos um primeiro momento com o professor (gravado) e o segundo momento com a tutora local, uma garota bem novinha, de voz aguda. A sala tem mais de 50 alunas e, se não me engano, apenas três caras. A maioria do pessoal vem das cidades vizinhas em ônibus escolares financiados pelo FNDE. O material na plataforma é muito bom: vemos os vídeos, lemos os textos, fazemos as atividades online e vemos essas aulas.   Na última quinta-feira foi a prova de Políticas Públicas da Educação, e as minhas colegas (que me desculpem os caras, mas as meninas são maioria) estavam mais barulhentas do que sempre. Fico quieta no meu canto, observando as figuras, aprendendo e apreendendo a situação. Até agora, me sinto meio como Perry, o Ornitorrinco, meio agente secreto, disfarçada de "estudanta", torcendo para que minha formação avançada não seja um obstáculo à convivência.

Então, voltei aos bancos escolares.   Na Faculdade, disse a Profa. Rosa Antunes da minha nova condição. Ela, pedagoga da velha guarda, aposentada da UPE, com 50 anos de educação, ficou tão satisfeita que, no outro dia, forçou o filho a abrir os baús e trazer de casa esses livros para me ajudar, que já estão devidamente acomodados na minha estante: 



Fiquei muito feliz, pois é a minha parte na herança da velha. Ela, que tem me ensinado tanto, confiou-me parte dos livros, e sempre vem conversar sobre temas da pedagogia, às vezes até esquecendo que eu não sou propriamente uma debutante na educação. Vou vivendo um módulo de cada vez e aprendendo coisas novas.Neste último módulo, estudamos as políticas e o financiamento da educação brasileira, e foi muito interessante saber que muito foi idealizado, mas, que ainda há um abismo entre a teoria e a prática. Nesse aspecto, nada mudou. Resta a esperança, pois no grupo, apesar de heterogêneo, há algumas jovens com carinhas de menina, e, não sou eu que irei promover o choque de realidade. Que o cotidiano se encarregue disso, da forma mais suave possível.

Fiquem com Deus. 




domingo, 24 de setembro de 2017

Mundo gay


E em Garanhuns, o inverno prossegue. A primavera este ano parece que vai ter que esperar mais um bocadinho para se instalar. Eu mesma já estou perdendo as esperanças de que amanhã teremos um belo dia de sol. E o pior é ter que bater na boca quando se clama por um pouco de calor, pois nesta região do país sofremos imenso com as secas. Nosso maior problema com chuvas tão prolongadas é o bolor que toma conta das construções. Acredito que não há uma só unidade residencial em Garanhuns que não tenha ao menos uma parede mofada. O jeito é investir no anti-alérgico e ir conduzindo da melhor forma. Ainda não arranjamos uma maneira de controlar o tempo, e, creio que viveremos nossa existência sem criar tecnologia para isso.

Nesta semana, fomos surpreendidos com uma decisão judicial que permite aos colegas psicólogos realizar terapias para "reverter" a homossexualidade. O tema ganhou a rede social, e muita gente se posicionou acerca da temática, repercutindo o assunto como "cura gay". Penso que há, neste cenário, uma série de distorções, mas que em todo caso somente dificulta a vida daqueles que decidem assumir e viver sua vida e ser feliz a seu modo. A ala da Igreja pulou na jugular do cordão multicor e daí, a discussão degringolou para a galhofa, seguindo a tradição a melhor brasileira de ser o país da piada pronta. 

Sobre essa discussão, eu tenho um pensamento já bastante solidificado e acredito que a contenda acerca da sexualidade é uma questão ultrapassada. Percebo que tem gente que nasce gay - quem nunca viu um menininho desmunhecado desde cedo? - e tem gente que se torna gay. Qualquer que seja a condição, trata-se de um percusso pessoal, ao qual não cabe interferências. Até porque, minha gente, que diferença faz na nossa vida o que o outro (esteja ele longe ou perto) faz de sua vida emocional/amorosa/sexual? Há um tempo atrás, quando substituía Eliane na Faculdade de Administração, na disciplina de Sociologia, numa turma sui generis (tinha um padre e um homossexual assumido no mesmo grupo!), discutíamos acerca da diversidade e tolerância, daí, inevitavelmente, a discussão rumou para a questão da homossexualidade. O debate pegou fogo quando o padre e umas moças expuseram a sua repulsa gay. A cada crítica, a cada estocada, percebia que o coleguinha gay se afundava um pouco na cadeira, absolutamente constrangido pelo grupo. A certa altura, interferi e pedi a palavra, perguntando: "Minha gente, eu sou gay. Isso faz alguma diferença para vocês?" A turma ficou muda. O padre foi o primeiro a aliviar: "Não professora, que é isso? Todos são filhos de Deus". Pois então, peguei o sacerdote na palavra: "Se todos os seres humanos são filhos de Deus, então, vamos nos respeitar pela humanidade da qual fazemos parte." E acabou-se a conversa. 

Não, eu não sou gay. Mas respeito a opção de quem é, sobretudo admiro a coragem de assumir ser o que é. No início do século, dei aula no PROGRAPE, um curso especial de pedagogia ofertado aos professores da rede pública que não tinham a formação em nível superior. A maioria esmagadora das turmas eram de mulheres. Em Lajedo, tive uma turma que eram 50 mulheres e um gay. Ele mesmo se apresentava assim, e, para mim, aquele aluno era a resistência na sua essência: numa cidade pequena, um professor da zona rural, assumir-se gay e ser aceito pela comunidade é uma grande vitória. E ninguém pense que é fácil marcar posição, principalmente neste tempos bicudos de tanta regressão nas liberdades individuais.

É certo que atualmente é um pouco mais fácil o sujeito tomar o rumo de sua vida, pois o apelo das mídias é grande. Fico observando lá na escola: a quantidade de meninos novos gays é uma coisa impressionante, e para as meninas heterossexuais é uma concorrência acirrada. Digo meninos, pois, por conta dos trejeitos é mais fácil identificar a eles do que a elas. Já não tenho visto mulher gay brucutu. A maioria das moças continuam moças comuns. É tão comum ser gay, que como diria meu cunhado Carlos "Daqui a uns dias, vão apontar-nos na rua e dizer: 'olha, lá vai um homem. Um besta heterossexual'". 

E vamos vivendo. Quando externo a minha opinião sobre o tema, sempre me questionam acerca da minha filha. E eu devolvo a reflexão inicial: como o tempo, não há tecnologia para controlar a sexualidade. O que desejo é que minha filha cresça e se encontre como pessoa, que respeite a humanidade da qual ela  e nós todos fazemos parte, e trabalhe honestamente, contribuindo para que tenhamos um mundo melhor. Que seja uma pessoa feliz, o que é realmente importante, pois gente feliz não cuida na vida alheia.

Fiquem com Deus.