segunda-feira, 24 de julho de 2017

No caminho a caminhar: Aveiro

Moliceiros na Ria de Aveiro
Chegamos em Lisboa pelas 11 horas, depois de sete horas e um pouquinho de voo sobre o Atlântico. Até que a passagem pela Linha do Equador não foi muito turbulenta. Apesar disso, não consegui dormir nenhum sono, pois ficamos nas cadeiras do meio da classe econômica, e o espaço exíguo nos incomodava. Luiza ainda encostou a cabeça no meu ombro e tirou uma soneca. Eu, fiquei nos cochilos esparsos. Quando desembarcamos, sempre há aquela tensão de passar pela imigração. Não que tenhamos coisas erradas, mas nem sempre é possível prever as exigências para ser aceito no país dos outros. Passamos batom, alisamos os cabelos da melhor maneira possível para tentar passar uma melhor impressão, apesar da noite insone. Pois, foi engraçado. O inspetor da imigração cumprimentou Luiza em inglês, que prontamente respondeu no mesmo idioma, enquanto apresentávamos nossos passaportes abertos na página das fotos. O sujeito olhou, e perguntou-me se éramos irmãs. Agradeci a gentileza, e expliquei que a jovem era minha filha. Em seguida, perguntou-nos para onde iriamos. Expliquei do congresso em Salamanca, mas que antes iriamos passar o restinho do dia e a noite em Aveiro, só partindo para a Espanha no manhã seguinte. O rapaz passou de oficial de imigração e deu uma de guia turístico: "Ah, vocês irão adorar aquilo lá a essa época do ano! É muito bonito. Hoje já passou por aqui um senhor brasileiro, vai a esse mesmo congresso. Ele é psicólogo. Você é psicóloga?" Expliquei-lhe que sou professora de metodologia de pesquisa, enquanto ele escaneava nossos documentos. devolveu-nos os passaportes recomendando que não deixássemos de procurar "la rana" no frontão da reitoria. Sem entender nada, agradeci, nos despedimos e seguimos. Nunca tive uma recepção tão amigável em Portugal.

Seguimos para Aveiro no comboio das 14h07, depois de comermos nossos pães com chouriço numa lanchonete da Gare do Oriente.  Ao contrário das minhas pesquisas, era um Alfa Pendular que só fazia uma parada em Coimbra B, antes de Aveiro. Melhor assim, pois tive um tempinho de dar um cochilo sem me estressar com a nossa parada. Foi um pouquinho mais caro do que constava no meu planejamento, mas, uma viagem num Alfa Pendular vale a pena, é um trem tão chique! Luiza dormiu as duas horas de viagem, o que ajudou a melhorar o humor da pequena. Para ela,  a viagem a Portugal era um  retorno a infância: muita coisa ela ia lembrando ao longo do caminho. Chegamos em Aveiro pelas 16 e pouco. A pensão que havíamos reservado por 45 Euros ficava bem ao pé da Estação dos Comboios. Após ajeitarmos nossas malas no quarto de um prédio de 1924, saímos para reencontrar a cidade. 

Fizemos uma primeira parada numa quitanda onde comprávamos frutas a caminho dos comboios para um passeio qualquer. Sempre gostei muito dessa lojinha pois a senhora que atende é muito atenciosa, os preços são bons e as frutas, sempre frescas e bem limpinhas. Comprei cerejas frescas e fomos comendo pelo caminho, enquanto conferíamos o que havia mudado. Fomos andando até o Forum, um pequeno shopping que domina parte importante da vida social do centro da cidade e demos um alô para a ria.    

Ria de Aveiro
 O plano era ir ao Ramonas almoçar cachorros-quentes. Essa lanchonete foi um lugar importante para nós, pois, quando saíamos da escola na sexta-feira, e tínhamos algum dinheirinho, era lá que fazíamos o jantar do primeiro dia do final de semana. Às vezes, como diz Luiza, eu estava numa "bad profunda", na fase de conclusão da tese de doutoramento, que não conseguia comer nada, tomava dois copos imensos de suco de laranja com cenoura. Do Ramonas, passamos à frente da Escola da Glória, onde Luiza estudou por dois anos, antes do prédio ser fechado para uma reforma.

Escola da Glória, Aveiro.
Tenho uma imensa gratidão a esta escola, que recebeu tão bem a minha pequena. Aqui ela aprendeu muito, teve a oportunidade de fazer a base de sua educação em uma excelente escola, com professores maravilhosos. 

Da escola, passamos no nosso antigo endereço e fomos ao Parque D. Pedro. Nesse espaço brincamos muito nas intermináveis tardes de verão, compramos kitkat na barraquinha da esquina, demos comida aos peixes do lago e aos pombos.
Eu, na pontezinha da Casa de Chá, Parque D. Pedro, Aveiro
Ponte Pedonal. Liga o Parque D. Pedro a Baixa de Santo Antonio, Aveiro.


 Quando saímos daqui, em 2013. parte do parque estava fechado para reforma. Construíram uma Ponte Pedonal que liga um lado ao outro da Avenida que termina na rotunda do Hospital e da Universidade. Não achei a obra grande coisa, acrescentando pouco a paisagem, mesmo tendo custado uma fortuna. Subimos a rua, passamos pelo Hospital e demos a volta pela passarela que liga a calçada lateral da Escola João Afonso, onde Luiza estudou seu último ano, em razão da reforma da Escola da Glória. No espaço, não há mais nada, somente a base onde foram assentados os prédios provisórios. 

Reitoria da Universidade de Aveiro
Entramos no campus da Universidade de Aveiro. A esta altura nossos pés já doíam imenso, e a esta época, quase não há estudantes no Campus, somente alguns poucos bolsistas e servidores. Sentamos à frente do prédio para descansar um pouco. Percebi que agora há o número e o nome do prédio nas fachadas de vidro. Na época em que eu era aluna novata sofri para identificar os prédios, pois tudo era muito discreto. Nas minhas primeiras semanas, dei muita cabeçada para achar o prédio de Comunicação e Arte. Descemos a rua, passamos pelo prédio que acompanhamos a construção à frente do nosso pequeno apartamento. Atualmente, é um grande edifício, cujo piso térreo é um centro médico, com clínicas diversas. Passamos pelo Largo do Tribunal e descemos pela Rua Belém do Pará, que nós chamamos de Rua do Vento. Há muitas lojas novas, reconheci apenas a ótica que frequentávamos para consertar os óculos de Luiza e algumas pastelarias tradicionais. Entramos por um bequinho que dá no Fórum. A casa abandonada ao lado foi demolida e estão construindo um prédio. Deixei Luiza esperando na frente da Zara (na nossa época era um supermercado Pingo Doce) e fui saber onde tomar o autocarro para Albergaria-à-Velha, próxima etapa da nossa viagem. Na revistaria, a jovem me explicou que agora o ponto era ao pé da Ria, na paragem dos autocarros que vão para  Costa Nova. Beleza. Quase nos arrastando de tanto cansaço, ainda passamos numa loja de doces que há no Fórum para Luiza comprar umas gomas de amoras. Ela comprou isso e mais outras coisas, e, já com calos nos pés, pegamos um táxi na outra avenida, ao pé do Banco Santander. 

Quando chegamos à pensão, já passava das nove da noite, embora a visão da janela do nosso quanto nos mostrasse essa imagem:
Estação dos Comboios, vista da janela do quarto do Alojamento Tricana de Aveiro
No verão, os dias são longos e entram pela noite. Quando fica escuro já passam das 22 horas. Fechamos nossas cortinas e após um banho relaxante, como nos velhos tempos, dividimos a cama de casal do pequeno quarto. 

O ventinho frio da cidade litorânea nos avisava que o dia posterior seria ensolarado, mas, que, como sempre, começaria nublado e friorento. Fomos dormir, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido nesta cidade pequena, mas cosmopolita, que sabe respeitar as diferenças culturais e recebe carinhosamente a todos que chegam em busca de conhecimento. É muito bom poder voltar a uma cidade querida e perceber seus progressos e suas permanências, lembrando histórias engraçadas a cada troca de calçada.

No outro dia, logo cedo, após um cafezinho com meias-de-leite, torradas e pasteis de nata, envoltas no vento frio cheirando a sal, tomamos um táxi na frente da estação até a Ria para pegar o autocarro para continuar a nossa viagem, que fica para o próximo post.

Fique com Deus. 

domingo, 9 de julho de 2017

Cruzada hispânica

Agora, o inverno vai a todo vapor. Chove tanto em Garanhuns, que acreditamos que o sol irá voltar somente em setembro. Segundo Virgínia, Deus está atendendo cada uma das orações que foram feitas, pedindo chuva. Portanto, como foram muitas súplicas, e o altíssimo tem um controle de qualidade acirrado de suas bençãos, seguremos-nos, pois haverá ainda mais chuva. Pelo menos, este ano, se permanecer como estamos, não reclamaremos que o inverno não veio para o Festival.  

Pronto. Então, estamos fechando as malas para uma cruzada hispânica. Outro dia, contei-lhes que havia me enrolado com o câmbio e o preço das tarifas aéreas. Pois, mesmo em tempos tão bicudos, arranjamo-nos e estamos seguindo para uns dias na Espanha. Tudo começou de uma raivinha que me fizeram lá no serviço. Às vezes, o pessoal exagera nas "picuinhas acadêmicas" e machucam. Para não dar uma mordida em cada um dos envolvidos, canalizei a minha energia na produção científica, e submeti um artigo num encontro de Análise Qualitativa, que este ano ocorrerá em Salamanca. Nem tinha nem esperança que fosse aprovado, pois, como participo como avaliadora, tive a pachorra de contar quantos artigos foram submetidos através do EasyChair: 698. Pois bem, qual não foi a minha surpresa quando me mandaram o e-mail de aceite do tal artigo. A partir de então, já desisti mil vezes, e sempre voltei atrás. Então, quando recebi o voto de aplausos da Câmara de Vereadores de Garanhuns, solicitado pelo Vereador Alcindo, não dava mais para desistir. Depois de deliberações, decidimos que iríamos eu e Luiza. Tony está enrolado com os processos da Câmara de Vereadores e preferiu economizar para a um "projeto pessoal em 2018", como ele mesmo diz. Arranjei um dinheiro na CEF (coisa de servidor público pobre!) e comprei as passagens. Ajeitamos, puxamos daqui e colocamos lá, e, amanhã embarcaremos para a cruzada hispânica. 

Preferi pegar o caminho conhecido da imigração portuguesa, pois, eles têm meu "DAE", e sabem que não tenho a intenção de ficar. Vamos de comboio para Aveiro, aproveitamos para matar as saudades daquela cidade tão linda, a qual tenho tamanha gratidão. Olhando o mapa, pode-se perceber que de Aveiro para Salamanca é quase uma linha reta de mais ou menos 300 quilômetros para o Oeste. Assim fica melhor do que ir para Madri e ter que pegar descendo. No outro dia, pegamos um ônibus para Albergaria-à-Velha, e de lá, outro ônibus para Salamanca.  Ficamos até a sexta, 14, quando será a nossa apresentação. Digo nossa, porque o artigo é em parceria com Francislê, e Luiza já se candidatou para ser minha assistente. De Salamanca, vamos à Madri e depois Barcelona. Tudo de comboio, que é mais barato. Voltamos à Lisboa e pegamos o bonde descendo para o Brasil, que ancora em Fortaleza e depois uma conexão para o Recife. Chegaremos, com a graça de Deus, no dia 21, pela madrugada.     

O itinerário está pronto. Salvo possíveis imprevistos, está tudo milimetricamente planejado. Apesar dos preços serem bem mais salgados nesta época do ano (o verão europeu custa os olhos da cara!), a grande vantagem é que as malas são bem menores, e como Luiza já está maior do que eu (embora eu não seja propriamente um referencial em altura), cada uma leva a sua bagagem, pois já eduquei a minha pequena as vantagens de ser compacta. Viajar com Luiza é bem legal porque ela já tem o nosso senso prático e gosta de participar de tudo. Quando estava naquela fase do "vou! não-vou-porque-não-tenho-dinheiro", ela veio pedir uma conversa de filha e mãe. Foi mais ou menos assim:

Ela - Mãe, eu quero ir a um psicólogo.
Eu -  E é? E por que tu queres ir a um psicólogo?
Ela - Porque estou com uns problemas e quero falar com alguém sobre as minhas coisas.
Eu - Fale comigo, então.
Ela - Não vale, tu és minha mãe.

Passou-se. Realmente, os dias subsequentes, percebi que ela estava muito tristinha, sem querer comer direito (isso é um sintoma grave na nossa família), ficando muito tempo no quarto. Pedi ajuda a Izabel, que me indicou uma colega dela, e tal. No final da semana, fiz minhas contas e fui conversar com a jovem, agora de mãe para filha:

Eu - Luiza, arranjei uma psicóloga para tu ires.
Ela - Boa. Eu vou quando?
Eu - Assim... Você sabe que essas coisas custam um bom dinheiro, e eu estou apertada porque tenho aquela história do congresso...
Ela - O da Espanha?
Eu - Esse mesmo. Então, eu só posso pagar uma coisa: você que ir ao psicólogo ou quer ir a Madri comigo?
Ela - (sem nem pestanejar) Vou para Madri!!!! 

E ficou boa na hora dos pantinhos de adolescente.

Pois bem, estou apostando que seja mesmo um bom remédio. Um pouco caro, mas completamente eficaz. Vou passar um tempo relativamente enforcada, mas, quem sabe estou realizando uma profecia daquelas que vem nas músicas infantis: "Fui a Espanha, buscar meu chapéu, azul e branco da cor daquele céu!" Além disso, o que seria da vida, se não fosse as minhas pequenas doidices?

Fiquem com Deus, que nós vamos com ele e Nossa Senhora!

domingo, 2 de julho de 2017

Fofoquices

Então, na última semana acabei sendo mais uma vítima da gripe pós junina. Desde 2013 que não contraia um vírus, já estava me achando uma X-Man. Qual o que? Foi só uma bobeirinha, uma chuvinha e uma fumaça de fogueira que enfraqueci e o safadão acabou me pegando. Ainda fiquei comemorando por ter caído somente na quinta passada, pois essa semana estou cheia de compromissos e não é de bom tom chegar numa qualificação de mestrado falando "abiguinhos". No ranger das tempestades, estou quase boa. Além do ambiente junino, contribuíram também o inverno, que este ano está bem temperado e a reforma na escola. O primeiro, é uma característica de Garanhuns. Aqui, quando baixam as temperaturas, o mofo toma conta porque a umidade é imensa. Uma festa para os bolores e uma luta inglória para os alérgicos. Na escola, estamos vivenciando uma reforma da coberta, pois havia tantas goteiras no teto que ficávamos a pensar se chovia mais fora do que dentro. Assim, a nossa nova presidente da Autarquia arranjou os procedimentos e, finalmente, estamos em reforma. Mas tudo o que tem que arrumar é preciso desarrumar primeiro, e o corredor das coordenações foi parcialmente transferido para outras paragens, permanecendo as últimas salas, das quais uma eu tenho ocupado. Então, somando-se tudo isso ao final do semestre quando já estamos cansados bem cansados e merecedores de férias, o sistema imunológico também cansa e nós ficamos vulneráveis a estes bichos. Maltrata, mas não mata.

Como parte da minha vizinhança mudou-se, reduz-se drasticamente também as conversas. Portanto, para muita coisa que muitos vêm me perguntar, só respondo: "não estou sabendo". E me preparo para ouvir uma ladainha de conversas, algumas meio sem jeito, outras fofocas genuínas. No ambiente de trabalho é profícuo para as fofocas, e a gestão de pessoas explica cientificamente. Como não tenho know how para fundamentações, além de que, hoje é domingo, só desafio a aquele que comprove que trabalha num ambiente imune a fofoca. É a tal rádio corredor que propaga o discurso extraoficial da organização, mas que reflete muito bem a sua cultura. E olhem que eu sou bem flexível na conceituação do que é fofoca e o que é comentário. Fofoca é aquele que sempre aumenta um ponto (ou vários), vem sempre com um tom jocoso de maldade e geralmente começa a sentença dizendo: "Se perguntarem o que eu disse, eu digo que é mentira". Quando ouvir essa frase, já pode ligar o seu detector de conversa mole, pois, lá em história. A esses, devemos ter a educação de ouvir, e jamais retrucar ou concordar. Se muita disposição tiver, o receptor da ideia pode jogar uma pergunta que pressione, nomeadamente nos detalhes, que o falador vai se perder e talvez saia com um "não sei, só sei que foi assim", citando Chicó, do Auto da Compadecida. Aqueles comentários especulativos, tipos, "tu soubesses que fulaninho saiu do departamento tal?" é somente o fio de Ariadne ao contrário para lhe inserir no labirinto da fofoca, sem cão nem gato. Por isso que eu ando evitando muita conversa, pois, a intenção primordial da conversinha é azedar o que já está bastante amargo, e, talvez seja esse um dos fatores desencadeadores das doenças organizacionais que vivenciamos. 

Mas, como para tudo tem remédio, numa sessão de "como foi seu dia?" estava contando aos meus que as coisas andam taciturnas lá na escola. Daí, Tony Neto saiu-me com uma de suas memórias: Quando ele era adolescente, a avó dele estava comentando muito enfaticamente acerca de alguma coisa ou de alguém, daí, ele saiu do banho (os banheiros nas casas antigas costumavam ficar na cozinha), dançando e cantando um clássico de Jararaca e Ranchinho: "Aiiii, pessoal! Escute nosso conselho, não fale da vida alheia, que é um costume feioooo!"  Pois, a avó, já nos azeites, deu-lhe uma lapada nas costas, que ficou os cinco dedos da velha desenhas nas costas do imprudente cantorzinho. Ainda levou um "cabra safado, me respeite!" e ele ainda hoje jura de pés juntos que não estava ouvindo a conversa e nem tinha a intenção de jogar uma indireta para a avó. Foi uma infeliz coincidência e D. Maria do Carmo, quando pegava ar, não perdoava. Não a conheci, mas definitivamente, ela nunca foi uma avó moleirona, que só sabem encher os meninos de dengos. 

De qualquer forma, tem um ditado que Genésia Neri sempre me dizia: "Quem fica calado, não se perde". E, como em boca calada não entra mosca, e além de tudo conserva pé do ouvido intacto, em certas ocasiões ouvir e calar é o maior exercício de sabedoria. Em caso de emergência, corra. Se não puder, ligue a cara no modo de paisagem e segua em frente, sem olhar pelo retrovisor!

Fiquem com Deus. 


domingo, 18 de junho de 2017

Let's talk about sex

"Não é a vida como está e sim as coisas como são."
(Meninos e Meninas, Legião Urbana, 1989)

Ontem foi sábado de prova. Desde os trabalhos da Unidade Curricular de Luis Pedro, no Doutoramento, que eu não me sentia tão perdida numa avaliação. Primeiro, um texto cascudo sobre um sujeito que decidiu mudar de vida, e viver sem pagar taxas ou impostos, seguido por quatro (ou cinco?) questões abertas. Depois, um listening daqueles que parece que o povo está falando dentro de uma gaveta. Eu já sou meio surda, e as criaturas falam para dentro com um ovo na boca. Deixa quieto.  Um lote de gramática, e por fim, uma produção de texto. Sei não. Não estou reclamando, sei que o nível é outro nível, mas, foi assim, bem "putz grila" (e acabei de entregar a minha idade com essa gíria "nova em folha"!). Ainda bem que existe avaliação final, a esperança dos desesperados, além do que eu já passei da idade de perder o sono com insucessos escolares. Vamos em frente.

Pronto, então, enquanto esperava a prova oral, cujas perguntas eu só me lembro da resposta na calçada, depois de dizer tchau a seu Irvison, fiquei ouvindo a conversa sem fim dos adolescentes. Caóticos como todos fomos nesta fase, eles falam de tudo atabalhoadamente, e é necessário prestar bem atenção para encontrar o fio da meada nas múltiplas intervenções. Eram dois garotos e três meninas. Um dos guris não estava nem aí para o papo, cutucava no celular, passeando dos jogos ao whats. A uma certa altura, deu um suspiro, abriu a bolsa e sacou um livro sobre o Thor. Às vezes concordava com um sorriso, ou dava a sua opinião, sempre em discordância com os demais. Entre as meninas, uma bailarina do cabelo comprido, elegante como uma garça, mesmo de óculos de grau. Uma gordinha que morou em São Paulo, e mesmo tendo saído de lá há 7 anos, ainda tem um sotaque estranho, cheio de erres dobrados. A outra, uma jovem, nem feia nem bonita, normal. E o outro cara, um sujeito daquele tipo popular,  cabelão liso escondendo na testa uma constelação de espinhas. O mais interessante foi o rumo da prosa: começaram falando da prova, alguém disse que errou as horas, e outros acertaram os particípios. Depois falaram (mal) dos professores da escola regular, onde finalizam o ensino fundamental, principalmente da pobre da professora de inglês, que, segundo eles, pronuncia as palavras com um grotesco sotaque nordestino. A comparação na boca dos adolescentes é sempre cruel. Depois, começaram a falar dos colegas. Daí, a gordinha sacou essa afirmação: " Ô minha gente, fulaninho é bissexual." A bailarina concordou, e o baixinho levantou os olhos do livro sobre o rei do trovão. A outra justificou que o tal sujeito era, na verdade, gay. O outro carinha, levantou evidências que o tal fulaninho aceitava tudo. Segundo eles, o sujeito lá é "flex" (em alusão ao automóvel). Me deu uma vontade danada de ir lá e perguntar para eles o que significava ser "bi", conforme eles afirmavam. Mas, fiquei quieta no meu canto, como deve se comportar uma grandma. 

Deixei a conversa pela metade porque o prof. Jefferson nos chamou para a avaliação. No caminho de volta, fiquei pensando de como as coisas andam "modernas". Quando eu era adolescente, as conversas não tomavam esse rumo, pelo menos publicamente. Até porque, estávamos eu e o coleguinha Luiz Arthur, que tem apenas 11 anos, além da tia da lanchonete. E o pessoalzinho lá danado a opinar acerca da orientação sexual dos colegas da escola. Na minha época, o pessoal lá da rua, no Magano, chamavam "gay" de "invertido" ou "macho-e-fêmea". Somente depois da AIDS, já no final da década de 1980, é que as práticas sexuais começaram a ser mais "esclarecidas". É claro que eu, como sou a mais nova de 7 irmãs, acabava pescando algumas informações, mas nada que fizesse de mim uma "menina prodígio". Os meninos hoje em dia têm muita informação, e nenhum pai e mãe se iluda pensando que consegue controlar o que o seu anjinho ver na internet. O melhor mesmo é chegar junto, e às de vez em quando, puxar a conversa numa dimensão educativa. Garanto que os jovens ficam mais constrangidos do que nós, pois, apesar de já termos superado a contenda com a televisão (o vilão da minha época), ainda permanece aquela representação de que os pais são assexuados e que nasceram com 40 anos. Precisamos também tentar perceber que o mundo mudou, e não se espantar com a (suposta) flexibilidade da pós modernidade. Afinal, Renato Russo já dizia: 

"Acho que gosto de São Paulo,
 gosto de São João. 
Gosto de São Francisco e São Sebastião. 
E eu gosto de meninos e meninas". 

Ou fazer como diria minha mãe: "talvez seja uma homenagem para os amiguinhos e amiguinhas dele." Minha mãe era pós moderna mesmo tendo nascido em 1929!

Fiquem com Deus.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Festas de Junho

Então, chegou o mês de junho, e com ele, as festas juninas. Cumprindo minhas excepcionalidades, estou hoje em casa porque a escola deu feriado a semana inteira. Como ontem foi feriado em Garanhuns, pois foi dia de Santo Antonio, e na quinta é Corpus Cristhi, ficava difícil para os estudantes comparecerem, daí aprovou-se o recesso acadêmico. E nessa manhã gris, Luiza foi para a escola sob protestos, pois, além de não ser feriado na escola dela (que é evangélica!), tem prova de espanhol. Obrigada, Igreja católica e seus santos, que nos providenciam de quando em quando uma folguinha.

Então, cumprindo nossa agenda festiva, segunda-feira, dia 12, recebemos a família para comemorar o Santo Antonio. Desde criança que Tony sempre fez uma fogueirinha na porta de casa para marcar o dia do santo dele. Segundo Joana D'arc, ele sempre acho que o santo era ele! Pois, dos tempos que passamos fora, voltamos com o propósito de todo ano, pelo dia 12, fazer uma coisinha para marcar o dia do padroeiro do meu companheiro. Pois bem, semanas antes começamos nossas atividades de "promoters". Um check list enorme foi partilhado pelo whats app, e a medida que a data se aproximava, nos dividíamos para providenciar do gelo às bandeirinhas. No dia, as compras de rua ficaram para Tony e a arrumação da casa e da garagem ficou para mim. Luiza correu por fora porque teve aula pela manhã. Mas, à tarde, enquanto eu colocava as bandeirinhas, às voltas com Durvalzinho que queria brincar com os enfeites, mandei-a ir ao centro da cidade comprar umas tolhas de mesa, pois, há objetos que eu só me lembro que existe é quando falta.

Pronto. Pelas 19 horas, começaram a chegar os convivas. Chester nos salvou com um pen drive de forró pé de serra, pois não temos muito do gênero na nossa playlist. E foi bem animado. Esse ano, Nelly nos salvou acendendo a fogueira, porque esse povo da cidade já não sabe mais nem fazer um fogo. Todo ano, acender a fogueira é um drama à parte, pois, há uma crença de que se o fogo não pegar, o (a) dono (a) da casa morre. Pensem numa pressão! E como pretendemos ficar nesse mundo mais um bom tempo, a fogueira PRECISA ser consumida pelas chamas. Foi animado. Este ano, tivemos a participação de alguns amigos que vieram pela primeira vez: Carlinhos, André, Jakeline (ela é a minha dentista) e os filhos. A esposa de Chester e a menininha, muito fofa. David e Nelly.  E Mytsi. E Ariana. Mexendo nos álbuns de fotografias, achei uma foto antiga de Tony e Ariana dançando quadrilha:



 Então, Rita refez a foto:



A festa dos Antonios foi muito animada. Andreza (amiga da escola de Luiza) se saiu uma ótima soltadora de fogos. Os pequenos brincaram, os grandes se divertiram. Ficamos muito felizes porque D. Nilza esteve presente, mesmo convalescendo de um resfriado, que lhe custou uma estadia no Hospital. 





 Hoje pela manhã, contamos quantas pessoas somaram no nossa arraial: 52. Destes, três casais e dois caras não são parentes, os demais resultam de duas famílias numerosas. Faltaram alguns, como Ana Paula, que chegou da Itália no outro dia, e Iasmin e Yeyo, só chegaram da fantástica trip Chile-Garanhuns tarde da noite. Pedro estava na Faculdade, e Vilma, Nido e as crianças não puderam vir por causa do trabalho. Júnior Galego também não veio porque trabalha em outro Estado.  Mas, haverão outras oportunidades. É certo que no outro dia, a casa estava um pandemônio e eu parecia que tinha sido atacada por javalis, pois definitivamente estou sem preparo físico para encarar um  salão de bandeirinhas, mas, não há dinheiro que pague a oportunidade de juntar esse povo todo para comer pamonha, tomar cerveja e jogar conversa fora, mantendo a tradição das festas de santo e a muvuca das famílias latinas. Feliz por tudo isso. Se Deus permitir, ano que vem, tem mais. 

Fiquem com Deus.